nov 10 2009
A viola e a música caipira no século XXI
O jornalista, e apaixonado por música caipira, José Hamilton Ribeiro em seu livro “Música Caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos” defende a teoria de que hoje a música sertaneja (aquela que tem origem no sertão) está dividida em três correntes distintas. As três vertentes que José Hamilton se refere são: suburbana, urbana e rural.
Suburbana
É a vertente representada pelos jovens sertanejos e que move rios de dinheiro para as grandes gravadoras. O tal “sertanejo universitário”, como é conhecido, apresenta canções de qualidade questionável, tanto do ponto de vista da melodia quanto das composições. Esta corrente rompeu definitivamente com a música sertaneja de raiz, a única característica que se mantém é o cantar em dupla. As letras em sua maioria abordam temas vulgares e apelativos, o som da viola desapareceu e deu lugar aos instrumentos eletrônicos.
Ivan Vilela, violeiro e pesquisador, afirma que “a música sertaneja é a caipira mesmo. O que existe hoje é o romântico sertanejo. É um outro segmento que está muito mais próximo da música romântica do que da música caipira”.
Outra característica evidente no meio dos jovens sertanejos é a constante regravação de músicas de raiz. Música de boa qualidade permanece viva, independente do tempo, e sempre encontrará espaço abundante num mercado carente de qualidade e originalidade. É raro encontrar uma dupla sertaneja que nunca tenha gravado, por exemplo, “Saudades da Minha Terra” ou “Pagode em Brasília”. Isso comprova que o público consumidor ainda está, mesmo que inconscientemente, ligado as boas canções caipiras, ou seja, há esperanças.
Urbana
Representada por artistas e estudiosos da viola. São os caipiras que possuem curso superior. É a presença da viola caipira nas universidades, orquestras de viola e concertos. Ivan Vilela é o responsável por levar a viola para a universidade. Em 2005 fundou o curso de bacharelado em viola caipira na Universidade de São Paulo (USP). Ivan diz que “a viola está muito desenvolvida em vários rincões do Brasil. E isso foi percebido por pesquisadores”.
Os patriarcas da nossa música caipira (Cornélio Pires, João Pacífico, Teddy Vieira, Tião Carreiro, Florêncio, Sulino, dentre outros) certamente estariam orgulhosos com o destaque que a viola está conquistando em pleno século XXI, transcendendo o meio caipira e ganhando status nos grandes centros. Este movimento de ascensão esta sendo liderado por uma moçada que se encontra com a paixão pela música nos bancos das universidades, que tocam desde Tião Carreiro até Villa Lobos nas dez cordas da viola.
Rural
Segundo José Hamilton Ribeiro é a vertente mais fragilizada dentre as três. Infelizmente que seja assim. É o grupo que luta para manter viva a autêntica música de raiz, abordando letras com temas sobre a vida simples do campo, animais, causos e a natureza. As canções conservam as características dos anos 50 e 60. São bravos caipiras que nadam contra a maré imposta pela mídia e pelas grandes gravadoras. Em sua maioria gravam discos através de selos independentes.
Dentre a safra de caipiras contemporâneos que lutam para manter a tradição podemos destacar Zé Mulato e Cassiano, Cesar e Caio, Marcos Mesquita, Mazinho Quevedo, Juliana Andrade e Jucimara, Jackson Antunes (conhecido artista de novelas e filmes), João Araújo, Chico Lobo e, claro, os poetas da música caipira Almir Sater e Renato Teixeira.
A cultura caipira, mesmo que a duras penas, está conseguindo se manter viva através das rodas de viola que acontecem, principalmente, no interior de São Paulo e Minas Gerais. Como disse Guimarães Rosa no auge de sua sabedoria “a gente sai do sertão mas o sertão não sai da gente”. Que assim seja!
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Bibliografia
Nepomuceno, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Ed. 34, 1999.
Ribeiro, José Hamilton. Música Caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos. São Paulo: Globo, 2006.
Internet
Entrevista realizada pela agência FAPESP com o violeiro Ivan Vilela – http://www.agencia.fapesp.br/materia/3265/entrevistas/pela-porta-da-frente.htm
Universidade de São Paulo – http://www.eca.usp.br/
12 Comentários sobre este texto
12 Comentários sobre este texto “A viola e a música caipira no século XXI”
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A música caipira da vertente “rural” como o texto não está tão fragilizada assim como se pensa. Frágeis estão as gravadoras, que tanto abusaram da busca de ganho financeiro a qualquer custo que se enterraram sob a atual tecnologia do MP3. E a vertente rural está intimamente ligada à vertente urbana, tanto que João Araújo criou um trabaho de preservação cultural denominado “Viola Urbana”. Ele mesmo, o próprio João Araújo, disse-me não ser caipira, não bebe pinga nem usa chapéu. Mas suas música e composições estão intimamente ligadas ao sertão e ao modo de vida do caipira. Chico Lobo, citado no texto como “rural”, fez shows na Europa, aliou-se a um autêntico violeiro português (Pedro Mestre) – é internacional, portanto.
O que vemos é um resgate de nossas raízes autênticas, desde que o gênero “sertanejo” está mesmo abandonando esse termo e já prefere ser chamado de cowboy.
Logo, logo, a música caipira vai ser caipira e ponto. É a música-raiz paulista e mineira. A música nordestina autêntica (Luiz Gonzaga, Dominguinhos) é a verdadeira música sertaneja (sertaneja=do sertão).
Graças a Deus!
Luiz Viola
Bauru e São Manuel SP
Compadre Luiz Viola, é um prazer “te ver” por aqui! Suas considerações são importantes. Concordo, as gravadoras estão fragilizadas e parecem que não querem buscar novos caminhos para a indústria da música.
A divisão sugerida pelo José Hamilton não é necessariamente ligada ao local de atuação: Urbano ou Rural (cidade ou campo). É uma divisão conceitual. As correntes sugeridas pelo Hamilton estão ligadas ao estilo das músicas. Temos o sertanejo universitário (romantico), os estudiosos da viola (presentes nas orquestras e universidades) e os que fazem a música caipira (seguindo as características de antigamente) que no texto são classificados pela corrente Rural, mas claro, muitos deles vivem nas grandes cidades não bebem pinga nem usam chapéu, mas fazem música rural.
Chegará o dia que nossa música caipira será independente e livre desta confusão com o sertanejo romântico!
Grande abraço companheiro!
É triste ver o pouco caso que as gravadoras fazem com o que é bom.
Estamos na era da sintetização.Tudo genérico.com isso a produção aumenta,ao custo da qualidade que é substituida pelo marketing.Tenho um prazer imenso quando estou ouvindo rádio e me deparo com Almir Sater,Renato Texeira,Sérgio Reis ou então Tião Carreiro.Mas Isso é Algo cada Vez Mais díficil.Mesmo o Grammy Latino para Sérgio Reis,nas Rádios “populares”faz pouca diferença.
Volta e meia aparece uma dupla que me trás alegria ao ouvir como Vitor e Léo.Mesmo com influência no Country,Você sente que a música é boa.Vale resaltar que não fazem o esteriotipo “caipira importado”que vemos hoje(primeira voz arrumadinho com roupa de cidade e segunda voz vestido de peão de rodeio).
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“Cumpadre” Zé Caipira!!!
O “Cumpadre” Luiz Viola sintetizou em pouquíssimas palavras, porém com bastante riqueza de Conhecimento o quanto a Música Caipira significa para a MPB de um modo geral e o quanto a maioria das gravadoras mais poderosas deturparam com o tempo esse conceito…
E José Ramos Tinhorão menciona que “…apesar das gravadoras multinacionais tentarem impor seus gêneros universais a todo o Povo Brasileiro, com caráter de monopólio musical, o mercado dessa genérica “Música Sertaneja” da área da Viola Caipira, Sulina ou Nordestina, continuaria a crescer, como se o público submetido ao processo de urbanização recente se recusasse a passar musicalmente da manteiga de leite de vaca para a margarina…” (do site: http://www.anovademocracia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=2348&Itemid=105)
Valeu, “Cumpadres” Zé Caipira e Luiz Viola!!!
Um grande abraço do Ricardinho!!!
Para definir e entender a situação da nossa música caipira no século XXI, eu imagino o Brasil como um grande pomar, onde as árvores, que representam os diversos gêneros da nossa MPB, estão plantadas nas diferentes regiões do país, de acordo com os gêneros predominantes em cada região.
As árvores da nossa música caipira estão plantadas principalmente na região centro-sul-sudeste.
Com o passar dos anos, as árvores da música caipira foram passando por um processo de enxertia e alguns galhos passaram a produzir frutos híbridos, alguns, por sinal, bastante indigeríveis.
O tronco continua autêntico, genuinamente caipira, produzindo ainda frutos puros, enquanto os galhos da enxertia produzem frutos exóticos, contaminados, que pouco ou nada tem a ver com os frutos originais.
Esses frutos contaminados somente existem, porque se sustentam em um tronco forte, de raízes profundas, e sem esse tronco sequer existiriam.
Os galhos da enxertia murcham, morrem, aí fazem novos enxertos que igualmente também murcharão, mas o tronco não morrerá jamais.
É que esse tronco foi plantado e adubado pelos pioneiros Cornelio Pires, Raul Torres, João Pacífico, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro, Zé Fortuna e tantos outros, que fincaram as raízes da música caipira nas profundezas dos nossos corações.
Saudações caipiras,
Afonso Barreiros
Compadre Afonso, sua analogia com um pomar de frutas é perfeita. Obrigado por sua visita, volte sempre companheiro.
Abraços
Olá
Carioca que sou, nascida e criada no Rio de Janeiro onde moro até hoje, lamento muito que a música caipira não chegue de verdade até a gente, eu adoro. Fora algumas novelas, que apresentam um ou outro artista, tenho muita dificuldade de conhecer o trabalho de vocês. Suas músicas não tocam nas rádios “modernas”, não encontro CDs nas lojas, não há shows por aqui. Só recentemente conheci um pouco do trabalho do Ivan Vilela, maravilhoso. E agora o Amir Chediak está aparecendo, legal. Enquanto isso, nos entopem de sambinhas cantados por mulheres, a nova moda carioca. Gosto de samba e adoro chorinho, mas é muito chato ver a riqueza da nossa música reduzida à mesmice.
Grande abraço
Monica
Não há neste momento no Brasil a possibilidade da música sertaneja (caipira, cabocla), ter destaque. Como li acima, é o mercado quem dita as regras. E tudo começou com o êxodo rural (fim dos anos 50 em diante) e a transformação do nosso país, que outrora era rural e passou a ser urbano. Sabe, não acho de todo ruim, pois a música cabocla deve estar nas casas… no som da viola, nas rodas dos amigos, nos bares, no galpão de alguma fazenda… só assim ela se mantém viva e pura. O excesso de exposição transforma, como aconteceu devido a própria industrialização e capitalismo moderno. Mas eu creio que isto vai mudar no Brasil nos próximos anos. O retorno as “raízes” é dialético, e acredito que vai acontecer algum movimento cultural nesse sentido em breve, como aconteceu na época das “modinhas” no ínicio do séc.XX ( Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha entre outros), na época da bossa nova, na tropicália, e o último suspiro, na minha opinião, de um movimento musical forte foi nos meados dos anos 80 com a turminha do rock nacional. Dos anos 90 até os dias de hoje não se viu mais nada de novo, portanto, sei que é a hora de uma nova poesia…e acho que vai ser a vez da viola capira. Só com um movimento cultural, participação de ícones expressivos e poesias verdadeiras que retratem o quotidiano misturado com as nossas tradições, costumes e anseios isto poderá ocorrer.
Gostei muito deste site e das matérias contidas. Sou pesquisadora da cultura caipira e também faço parte de uma ong chamada ong Jaú Caboclo com meu noivo que é presidente e que possui grupos de violeiros que leva para vários lugares da cidade e região. É um meio de não deixar morrer essa cultura tão rica e valorizada desde antigamente e principalmente nos dias de hoje, onde não vemos muito das músicas modernas e sim, universitários que não cantam com a alma sertaneja, falando do campo, da roça, do caipira, enfim. Devemos sim, nos reunirmos para não deixar que essas músicas não fiquem acima da autêntica música raiz.
Ola,
Sou estudante de Jornalismo e estou me formando esse semestre, meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) Será sobre música Caipira, eu gostaria de saber onde posso achar esses livros aqui em Brasilia.
Parabéns pelo trabalho.
Obrigada.
Olá Isabel,
Os livros você encontra em sites como Submarino, Americanas, Nobel.
Se tiver alguma duvida entre em contato.
Abraços
Zé Caipira
Gisele, seja bem vinda!
Obrigado por sua participação. Realmente não podemos deixar morrer nossa rica cultura caipira.
Volte sempre.
Abraços
Zé Caipira