out 05 2009

Afinal, o que é musica sertaneja e o que é música caipira?

Publicado por Zé Caipira na categoria A Música Caipira

Música sertaneja é toda música que tem sua origem no sertão (interior) brasileiro. Essa é a definição clássica. Hoje, infelizmente, o que vemos é uma grande distorção desse conceito. Segundo Zuza Homem de Mello podemos afirmar que sertanejo é gênero e caipira é espécie, ou seja, toda música caipira é sertaneja, a recíproca não é verdadeira.

A música caipira viveu seu auge entre as décadas de 1920 e 1970, época em que o Brasil era um país tipicamente agrícola. A partir, principalmente, da década de 80, o gênero sertanejo começou a se destacar no Brasil e passou a ser explorado comercialmente de maneira mais agressiva. Um marco importante foi o lançamento da música Fio de Cabelo (1982) da dupla Chitãozinho e Xororó, que vendeu mais de 1 milhão e meio de discos. Recorde absoluto de vendas até aquele momento para o mercado sertanejo.

Com o destaque da grande mídia veio também a influência da cultura Norte Americana. A contaminação começou com a inserção de instrumentos eletrônicos como guitarra, baixo e bateria, o que desconfigurou totalmente a música caipira praticada até a década de 70 onde a voz da dupla se apoiava em um violão e uma viola, as vezes com a companhia da sanfona.

A influência do caubói americano foi tão forte que as festas do peão se transformaram em verdadeiros mega eventos, rompendo totalmente com as raízes e costumes caipiras. As roupas, botas, chapéus, cintos com fivelas enormes, tudo isso foi “importado” e resultou no que conhecemos hoje por “jovens sertanejos” ou “sertanejo universitário”.

Vamos tomar como exemplo a festa do peão de Barretos que começou em 1956 e foi o primeiro evento do gênero realizado na America Latina. No início as apresentações de catira,  violeiros, desfiles de carros de boi, conjuntos folclóricos e campeonato de doma de cavalos eram as atrações da festa. Muito diferente do que vemos hoje, com as provas de rodeio seguindo o modelo americano e as apresentações de grandes shows, que na maioria das vezes não tem relação alguma com o mundo caipira.

Cartaz da 15ª festa do peão de Barretos

Cartaz da 15ª festa do peão de Barretos

Outra influência que a música caipira sofreu veio do México. Duplas como Pedro Bento e Zé da Estrada, Milionário e José Rico, Léo Canhoto e Robertinho são exemplos que adotaram o estilo mexicano. Utilizavam sombreiros e roupas típicas, até os gritinhos, próprio da cultura mexicana, foram incorporados a canção caipira.

Pedro Bento e Zé da Estrada (divulgação)

Pedro Bento e Zé da Estrada (foto divulgação)

Não bastasse a contaminação estrangeira, outra grande diferença entre a música sertaneja atual e a música caipira de raiz está nas próprias composições. A música sertaneja de hoje possui linguajar vulgar, pornografia e qualidade questionável. Muitos a classificam como estilo “mela cueca”.

Pena Branca define com simplicidade e sabedoria a verdadeira essência da música caipira ao afirmar que: “se houver vulgaridade e grossura, não é música caipira. Isso não é coisa da gente”. Romildo Sant’Anna contribui com a reflexão de Pena Branca ao dizer que “na música caipira os temas amorosos falam do amor puro, dos sonhos, erotismo e pensamentos impuros são um campo proibido dentro dos padrões conservadores da identidade caipira”. Definições mais do que perfeitas e conclusivas!

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Bibliografia
Ribeiro, José Hamilton. Música Caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos. São Paulo: Globo, 2006.

Internet

http://chitaoxororo.uol.com.br

http://www.independentes.com.br

6 Comentários sobre este texto

6 Comentários sobre este texto “Afinal, o que é musica sertaneja e o que é música caipira?”

  1. Luiz reison 06 nov 2009 at 15:49

    Salvo algumas excessões a Música caipira está se deteriorando assim como está ocorrendo com o Forró,o samba e acho que com todos os generos músicais.
    Dei-me a liberdade de publicar esse assunto também no meu blog para servir de assunto de discussão.
    Muito Bom esse seu prosa caipira.

  2. Luiz Violaon 10 nov 2009 at 13:11

    A ordem é inversa: a influência mexicana veio primeiro, muito primeiro. E atingiu o meio rural, sede da música caipira de então. Porém o autêntico caipira continuou em seu lugar e a separação ficou nítida: o que era caipira era caipira e o que era mexicano ficava evidente.
    Com a queda do Muro de Berlim, o poderio norte-americano se viu com campo aberto para espalhar seu modo de vida superior – no conceito deles – em toda a economia, inclusive na rural. Trazendo o rurícola para a cidade, teve-o à sua mercê e a enorme cadeia propagandística das gravadoras se encarregou de fazer as cabeças. A música do campo passou a ser “rock rural” (termo mais besta!), o pop, o funk e outras influências saíram a campo. E a música sertaneja passou a copiar o cowboy, com farto tempero de mau-gosto e vulgaridade.
    Em 1999, o movimento dos violeiros autênticos começou. Esse movimento visava e visa resgatar nossas raízes. Com o fatídico 11 de setembro de 2001, a Grande Economia fraquejou. Com o prosseguimento da Era Bush, este homem acabou por enterrar os Estados Unidos. Aí o brasileiro pôs a mão na cabeça e percebeu seu país. E vem voltando-se para ele. Bom para nossa cultura, desde que tomemos cuidado para que os estrangeiros não dêem novo golpe para influênciar de modo deletério nossa cultura.
    Um abraço,
    Luiz Viola,
    Bauru e São Manuel SP

  3. Luiz Violaon 10 nov 2009 at 13:46

    Definição direta do que é música sertaneja: é a música do sertão (do Norte de Minas até o Ceará, englobando todo o interior dos Estados dessa região). Conforme bem define Euclides da Cunha em Os Sertões, sertanejo é o homem do sertão. Exemplos de compositores de música sertaneja: Luiz Gonzaga, Dominguinhos.
    Música caipira: música do ambiente rural principalmente do Interior de São Paulo e Minas; música mesmo que urbana, masque remete a esse ambiente.
    Outros gêneros autenticamente brasileiros ditos “caipiras”, na realidade são: música matogrossense e goiana, gaúcha. O Norte tem um folclore tipicamente seu.
    A atual denominação de música sertaneja, que ficou conhecida jocosamente de “breganejo” ou “sertanojo”, é gênero cowboy em língua portuguesa com apropriações indevidas das antigas músicas “bregas” brasileiras (não é pecado ser brega e antigo, o problema é a adulteração das velhas partituras. Quem lembra o estrago que Chitãozinhoe Xororó fizeram em Rancho Fundo? E em Sertaneja?)
    É isso: música caipira está para o meio rural do Sudeste.
    Música sertaneja está no meiro rural do Nordeste.
    O resto é estrangeirismo e tentavia de dinheiro fácil.
    Abraço,
    Luiz Viola
    Bauru e São Manuel SP

  4. Zé Caipiraon 10 nov 2009 at 14:42

    Prezado Luiz, mais uma vez é uma honra sua presença aqui no site! Tem toda a razão, a influência internacional na nossa música caipira aconteceu graças ao incentivo da mídia e das grandes gravadoras. Isso gerou muito dinheiro, e continua gerando. Espero que nossa cultura caipira continue forte em seus princípios. Só depende de nós!

    Grande abraço compadre!

  5. Marilia Coltrion 22 ago 2010 at 23:55

    Essa pseudo superioridade vem desde o processo de colonização da América do Norte pelos ingleses. “Em meados do século XVIII, a disputa entre Inglaterra e França pelo comércio mundial acabou chegando à América. Assim, em 1756, iniciou-se a Guerra dos Sete Anos, em que a Inglaterra, envolvida com outros palcos do conflito, deixou praticamente aos colonos a defesa de suas possessões na América [erro estratégico da Inglaterra]. A luta contra os franceses e seus aliados indígenas despertou nos colonos um forte sentimento de autoconfiança, bem como a consciência de sua força militar. Pela primeira vez, as 13 colônias uniram-se em torno de um ideal comum. Vários líderes militares surgiram nesta época, entre eles o aristocrata George Washington. A Inglaterra saiu-se vitoriosa do conflito contra a França, surgindo, porém, uma forte crise econômica em virtude dos gastos militares. Para recuperar seu erário (dinheiro público), os ingleses adotaram uma nova política administrativa sobre suas colônias, caracterizada pelo arrocho. A liberdade comercial que os colonos tinham até então se restringiu às rígidas práticas do pacto colonial. Com o término da Guerra dos Sete Anos, a Inglaterra proibiu a apropriação de terras situadas a oeste, alegando serem reservas indígenas. O fato causou forte descontentamento entre os colonos, ávidos por novas terras.” (Sousa, 2010) Enfim, estava caracterizado o início do processo de independência dos EUA que culminaria em 4 de julho de 1776 com a Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América. A economia norteamericana cresceria a um ritmo assustador, com “conquistas” de novos territórios, como o Alasca comprado em 1867 dos russos, sem falar no território do Texas que foi ocupado por colonos norteamericanos de forma ilegal e inconsentida, onde empreendem organizações autônomas em suas áreas de influência. Sem o consentimento das autoridades mexicanas (e eles imaginavam que os mexicanos dariam o consentimento…) pelo território anexado, os colonos norteamericanos são incitados a travar uma guerra sangrenta contra o povo mexicano. Não citei o genocídio da população indígena da américa do norte, escancarada na obra magnífica de Dee Brown – Enterrem meu coração na curva do rio – que mudou radicalmente a maneira de se pensar a conquista do Velho Oeste, desmistificando a visão hoolywoodiana dos bondosos e heróicos mocinhos brancos, contra os ardilosos vilões de pele vermelha. Quem gosta de filme de faroeste, aí? Eu fui educada a sempre torcer para os índios, mas eles sempre perdiam… Contudo, e aí eu chego onde queria, mesmo sendo marcada por muita violência e pelas guerras, a expansão dos Estados Unidos até o extremo oeste recebeu uma significativa justificação ideológica, a Doutrina do Destino Manifesto, que colocou os colonos norteamericanos como divinamente destinados a promover a conquista dessas novas terras. A ambição e o interesse econômico ganharam um arrebatador apelo religioso que legitimava os conflitos e massacres que marcaram esse episódio na história norteamericana. Eles se achavam predestinados a dominar o oeste. Depois, com a Doutrina Monroe – “América para os americanos” (leia-se América para os norteamericanos) se acharam predestinados a dominar o continente americano. Tantas outras políticas imperialistas transformaram a América em quintal dos EUA. Isso justifica a arrogância e a prepotência que faz com que eles invadam qualquer país dos mundo em nome da worldpeece. Que se lasque a soberania desses países, o que importa é dominar. Todas as ditaduras militares da América foram financiadas pelos dólares estadudinenses. Isso tudo, sem dúvida nenhuma, se reflete na cultura. E sabendo de tudo isso somos obrigados a tolerar o estilo americanizado de algumas duplas sertanejas, em suas roupas e acessórios – e bota vulgaridade nisso-, sem falar naquela violinha redonda. Gravam cd’s com Willie Nelson que é ativista norteamericano em favor da paz. Nelson nasceu em 1933 em Abbott, região do Texas. Ele deveria ser mexicano, então. Bem, tirem suas conclusões. Mas essa duplas sertanejas são fruto desse processo de aculturação. E é exatamente aí que vem a magnitude da cultura caipira que não se deixou afetar, pois é nítida a diferença.
    Abraço,
    Marilia Coltri
    Socióloga e professora de História
    Sorocaba

  6. jojoon 01 dez 2011 at 11:04

    que legal

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