jan 18 2010

Ivan Vilela, violeiro e pesquisador

Publicado por Zé Caipira na categoria Entrevistas

Ivan Vilela

Ivan Vilela, foto divulgação.

Tive a honra de entrevistar o violeiro, pesquisador e professor universitário de viola caipira, Ivan Vilela. Com o conhecimento baseado em pesquisas e a experiência de quem desde cedo observa a cultura popular brasileira de maneira privilegiada, Ivan apresenta com propriedade seu ponto de vista apurado sobre cultura caipira e a viola como instrumento musical.

Prosa Caipira: em 2005 foi criado, na USP de Ribeirão Preto, o primeiro curso universitário do mundo voltado para a Viola Caipira, do qual você é professor. Como você avalia, 4 anos depois, a inserção da viola na universidade? Quais resultados foram conquistados?

Ivan Vilela: os resultados são positivos no que toca à divulgação e sistematização de um ensino para a viola. No momento em que a viola, uma representante da cultura popular de uma grande parte do Brasil, entra pela porta da frente no mundo acadêmico, carreia com ela toda a cultura popular que a cerca.

Há ainda muito a ser feito. Não possuímos material escrito (partituras). Eu e meus alunos temos trabalhado direto no sentido de vertermos para o papel as músicas dos mais diversos violeiros. Na medida em que criamos uma literatura para o instrumento as escolas e conservatórios se sentirão estimuladas a inserirem a viola no elenco de instrumentos a serem ensinados.

Prosa Caipira: o jornalista José Hamilton Ribeiro afirma que a presença da viola caipira na academia, concertos e orquestras é uma vertente em crescimento. Como você, um dos representantes dessa nova safra de violeiros, avalia este movimento?

Ivan Vilela: é um movimento forte, autêntico e que parte para colocar a viola em todos os segmentos musicais. A partir do momento em que cada vez mais violeiros divulgam o instrumento, maior é a certeza de o eternizarmos. Há muitos e muitos anos, décadas, eu diria, não vemos um número tão grande de meninos e jovens tocando o instrumento.

Prosa Caipira: na sua opinião, a viola corre o risco de se tornar um instrumento elitista, distante da cultura caipira?

Ivan Vilela

Ivan Vilela, foto divulgação.

Ivan Vilela: não, não corre. Por várias razões. Antes de ser um instrumento rural no Brasil, a viola foi um instrumento urbano tocado em cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife. São Paulo, enquanto cidade, só passa a ganhar a notoriedade de metrópole no último quartel do século dezenove. Desta maneira não é totalmente correto pensarmos que a viola é um instrumento puramente caipira. A viola, no Brasil tem raízes urbanas e é também um instrumento da cultura nordestina.

Ponho-me a imaginar que a viola “caipira” ganhou a notoriedade que tem por ser a música dos caipiras a primeira a ser gravada a partir de 1929. A música dos caipiras, acreditamos, se estruturou enquanto tal a partir do século dezenove, não obstante ter algumas de suas bases ainda no século dezesseis.

No Brasil criamos uma dicotomia entre o tradicional e o não tradiconal. Tocarmos outros tipos de música na viola não a fará perder o sotaque caipira, simplesmente ampliará o seu espectro de uso e possibilidades. Na cultura nada se perde, as coisas se transformam. É ingênuo pensarmos que as Folias de Reis de setenta anos atrás eram mais autênticas que as de hoje.  A cultura popular existe enquanto manifestação espontânea de um sentir do povo. Não dá para dizermos que os sentimentos de devoção dos camponeses de 1940 eram mais puros que os dos camponeses de 2010.

A técnica desenvolvida na viola pela música dos caipiras é única e não se perderá. É uma técnica sofisticada e cheia de recursos. É ponto de passagem quase obrigatório a todos que querem se ingressar nos meneios do instrumento.

Prosa Caipira: você sempre esteve intimamente ligado com o estudo e a pesquisa, neste cenário, como se formou o violeiro Ivan Vilela? Quais são suas principais referências?

Ivan Vilela: cresci em um bairro simples de uma cidade do interior de Minas. No interior a periferia é o que é mais perto do campo. Assim, tive a oportunidade de desde criança assistir a algumas festas de Folias de Reis, de Catiras. Meu mundo na infância permeava o urbano e o rural. Este valor dado à cultura popular me foi ensinado desde pequeno, em casa e na rua. Com 20 anos ganhei uma viola de minha irmã. Nesta época, início dos anos oitenta, eu estava conectado ao movimento de música regional que abarcava artistas de diversos estados brasileiros e da América Andina.

Em 1987 comecei a fazer pesquisas de campo. Conheci o antropólogo Carlos Rodrigues Brandão e viajamos juntos por 10 anos. Com 26 anos resolvi cursar Composição Musical, na UNICAMP. Do meio para o final do curso comecei a compor uma ópera caipira. Na hora de escrever os arranjos e composições, percebi que não sabia como escrever para a viola. Juntei então o instrumento e comecei a aprende-lo tirando músicas de violeiros da época: Tião Carreiro, Almir Sater, Tavinho Moura, Renato Andrade. Estes foram os que mais me cativaram na época.

A partir daí a viola foi me tornando e eu tornando ela. Isto foi  em 1993. Sempre ouvi música. Desde pequeno, como caçula de uma grande família, fui iniciado pelos irmãos. Ouvi e ouço da mpb ao rock, da música sertaneja autêntica à música clássica. Na época da faculdade, além de aulas de instrumento que dava, tocava na noite em Campinas e região.

Prosa Caipira: nos últimos anos, principalmente após a década de 70, a música caipira sofreu duros golpes e perdeu espaço para o chamado “Jovem Sertanejo”. Como você avalia a presença e a produção da música caipira nos dias de hoje?

Ivan Vilela: o gosto pelas raízes tem voltado. Já estamos ficando cansado de trocarmos nossa própria cultura por uma cultura de consumo, sazonal e sem significado. O próprio fato de a viola estar voltando às cenas é um indicativo disto.

As majors (grandes gravadoras) já não tem a força que tinham, muito embora a mídia radiofônica e televisiva esteja mais massacrante e ostensiva com a prática do jabá (jabaculê, termo tupi que significa oferenda; propina dada aos apresentadores de programas de rádio e televisão para que divulguem determinados artistas). Os pequenos selos e os pequenos espaços chegaram para ficar. Talvez esta música nunca junte multidões, mas certamente terá um público fiel, sempre.

Prosa Caipira: se pudesse arriscar um palpite, o que diria sobre o futuro da música caipira?

Ivan Vilela: sempre existirá. O sentimento de raizes, o enraizamento faz parte da nossa vida. Somos enraizados desde que nascemos numa família e convivemos num grupo. Simone Weil dizia que este sentimento de raiz nos traz valores do passado e nos dá pressentimentos para o futuro.

A música caipira sempre existirá nas suas mais variadas formas: autêntica, renovada, transformada, transfigurada, mas sempre música caipira. Lembremos que desde que começou a ser gravada a música caipira tomou cores diferentes, já teve violinos, tubas, triângulos, flautas, coros. O padrão violão e viola ganhou corpo nos anos de 1940 e se fortaleceu nas duas décadas seguintes.

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Ivan Vilela, foto divulgação.

As vezes corremos o risco de achar que este padrão não pode ser mudado e nos esquecemos que ele foi fruto de mudanças. Mais que na forma, é importante pensarmos na essência do que é a música caipira: uma canção que transmite valores a partir das histórias que conta. É essa força que fez com que os migrantes rurais que foram para a cidade grande não perdessem seus valores de origem, nem sua cultura, pois através da radiodifusão eram diariamente lembrados pelas belas histórias cantadas pelas duplas dos valores que viviam em seus corações. É certo também que música caipira tem viola quase sempre. Não podemos nos esquecer que ela é o maior guarda chuva de ritmos que temos na música brasileira. Desconheço algum segmento que abrigue tantos ritmos diferentes como a música caipira.

Prosa Caipira: está trabalhando em algum novo projeto (disco ou dvd)?

Ivan Vilela: estou agora finalizando meu doutorado que versa sobre uma história social da música caipira. Neste ano sai o novo CD da Orquestra Filarmônica de Violas e do trio Suzana Salles, Lenine Santos e eu.

Acabei de receber (em novembro/2009) meu novo cd “Do Corpo à Raiz”, que ainda não teve show de lançamento. É uma trilha que compus para o corpo de baile Dança Vida, de Ribeirão Preto. Ele é formado por jovens da perifeira da cidade. Todos são filhos de migrantes rurais, mas não tem nenhuma relação com a cultura de seus pais. A Funarte financiou o projeto a partir do Prêmio Interações Estéticas, e eu pude levar aos jovens cursos de Catira, danças da Folia de Reis, Moçambique e Congado, bem como aproximar os jovens do universo de seus pais. A trilha foi sendo composta ao longo dos laboratórios que fazíamos. Contei com a valiosa ajuda do meu aluno de viola da USP, Anderson Baptista.

Crédito das imagens – www.ivanvilela.com.br

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Para conhecer mais detalhes sobre o trabalho desenvolvido por Ivan Vilela, acesse www.ivanvilela.com.br

Conheça também, o ensaio “A Viola” escrito por Ivan Vilela – http://ensaios.musicodobrasil.com.br/ivanvilela-aviola.htm

4 Comentários sobre este texto

4 Comentários sobre este texto “Ivan Vilela, violeiro e pesquisador”

  1. Eduardoon 19 jan 2010 at 10:02

    O curso de viola da USP é um marco para nossa história caipira. A importância da viola como instrumento musical e cultural precisa ser disseminada. Abraços Ivan Vilela e Zé Caipira.

  2. Gustavoon 21 jan 2010 at 20:05

    Ivan Vilela é um ícone da nossa cultura caipira atual. Parabens pela entrevista e pelo excelente site.

  3. msilvaon 22 jan 2010 at 14:11

    A entrevista está linda, muito conteúdo de primeira qualidade. bjss

  4. Zé Caipiraon 24 jan 2010 at 19:45

    Gustavo, Maria e Eduardo, obrigado pela participação e pelos comentários. Voltem sempre!

    Abraços, saúde e paz!

    Zé Caipira

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