nov 12 2009
João Araújo e o som da viola urbana
Mineiro com muito orgulho, apaixonado por música e viola. Assim é João Araújo, um desses bravos artistas que lutam para manter viva nossa autêntica cultura brasileira. Confira a prosa gostosa que tivemos.
Prosa Caipira: quem é João Araújo?
João Araujo: João Araújo é mineiro: músico, produtor, cronista e sobretudo um apaixonado pela cultura brasileira. Fundador do trabalho de pesquisa e preservação músico-cultural “Viola Urbana”, é apenas mais um brasileiro que tenta fazer sua parte em prol do nosso país, utilizando as dádivas que Deus lhe deu, que é a de ser um artista.
Prosa Caipira: fale um pouco sobre o projeto Viola Urbana. O que é? Como nasceu?
João Araújo: estou tentando aprender a tocar viola, violão, cavaquinho e outras coisas já há 30 anos. Comecei atividade profissional somente há cerca de 10 anos, fazendo principalmente “voz e violão” na noite belo-horizontina, até 2004 quando surgiu a oportunidade de coordenar um projeto de primeira linha, patrocinado via Lei Rouanet.
Nesta época, durante a preparação de meu espetáculo de comemoração de 25 anos de aprendizado, percebi que as músicas que mais tinham marcado minha vida eram com viola, ou sobre viola. E ainda que não era um repertório tradicionalmente “caipira” como se rotula hoje em dia, mas principalmente de carreiras de artistas que foram muito influenciados pelo instrumento, mesmo vivendo nas cidades.

Foto divulgação. Crédito: Helen Lopes
Sendo eu mesmo uma pessoa nascida na capital e percebendo que o assunto ainda não tinha sido muito divulgado por este ângulo, resolvi aprofundar a pesquisa e fazer uma homenagem ao instrumento mais importante da nossa cultura através da observação admirada de quem vive nas cidades. Dividido em segmentos, um encarte de texto com o resumo da pesquisa acompanha as releituras das obras musicais em dois álbuns e um DVD, até agora – o objetivo é de chegar ao terceiro álbum, pois novos segmentos vão surgindo, graças ao trabalho de pesquisa, ao contato e à ajuda de vários outros profissionais da viola atual. A íntegra da pesquisa, assim como detalhes de todos os trabalhos que produzo ficam à disposição no portal www.violaurbana.com
Prosa Caipira: sobre suas produções, como surgiu a idéia de produzir o álbum Imaginário Roseano? Que é uma homenagem musical a Guimarães Rosa.
João Araújo: sou neto de um antigo “violeiro dos batuques” da cidade de Cordisburgo / MG, sobre quem estou escrevendo um livro, atualmente. Lá é também terra natal de Guimarães Rosa. Como leitor e admirador desse grande escritor desde a minha adolescência, quando descobri que ele usava várias vezes a linguagem de meus parentes em suas obras, há muito tempo percebia uma relação entre seus livros e algumas músicas do repertório regional brasileiro – que é minha maior influência na música.
Com o advento do centenário de nascimento de Guimarães Rosa, e a ajuda do violeiro Rodrigo Delage e do maestro e violonista Geraldo Vianna (outros dois malucos pelas coisas do sertão mineiro), resolvemos registrar essa ideia em disco, mesmo sem patrocínios e apoios.
Após conseguir a generosidade de Rolando Boldrin, Paulo Freire e Téo Azevedo – homenageados e participantes especialíssimos – não tinha outro jeito senão finalizar o melhor possível o projeto. E valeu a pena, é uma obra magnífica, única. E traz no encarte uma indicação de leitura de Guimarães Rosa para cada música relida com arranjos especialíssimos. Uma contribuição nossa à cultura brasileira, tentando unir literatura e música contemporânea (viola caipira, violão clássico, voz popular, de MPB).
Prosa Caipira: em sua opinião, qual será o futuro da viola caipira? Dá pra arriscar um palpite?
João Araújo: pelo que acompanho bem de perto, desde 2004, a viola “caipira” não existe mais. Já o instrumento “viola de 10 cordas” é um vencedor incansável, que a cada dia está mais forte. Está nas mais variadas vertentes da música brasileira, conquistando cada dia mais espaços para além da cultura caipira. Já é conhecida, no mundo inteiro, como “viola brasileira”.
Desde que chegou ao país, no início da nossa colonização, conquistou a todos e teve que vencer muitas batalhas. Nas mãos dos Jesuítas, arrebatou não só os índios mas todos os habitantes do Brasil da época, se tornando o principal instrumento de acompanhamento musical.
Quando os jesuítas foram perseguidos, no mundo inteiro, no século XVIII, fugiram para os grotões do Brasil, onde ficaram mais livres do dominío de Portugal (leia-se “Marques de Pombal”). E levaram consigo todas as brasilidades que hoje são chamadas de “arcaicas” (língua, folguedos, tradições… e a viola, claro!). Não, ela não nasceu no interior: era o instrumento da Côrte, na época – e que fugiu para longe por necessidade!
A viola se difundiu desde então pelo país inteiro em lombo de burro, pelos bandeirantes, tropeiros, tocadores de gado, etc. Como um encantamento, em cada lugar que era tocada alguém sempre queria ouvir mais, mesmo depois que o violeiro seguia viagem levando sua companheira inseparável… Foram feitas, então, diversas versões, com o material que se conseguia nas redondezas, na época: troncos de árvore, tripas de animal… O importante é que ela resistiu a tudo.
Trouxeram outro instrumento parecido, de Portugal, para ocupar o lugar dela, mas não teve jeito: a referência era automática – e por isso só aqui temos até hoje “violão” (uma viola grande?) e não uma “guitarra”. A viola, como a conhecemos, agora só existe aqui no Brasil.
Ela resitiu a tudo, e creio que continuará sempre resistindo. Ainda mais agora, que vejo que a cada dia está sendo mais respeitada.
Creio que atingirá seu ápice quando Minas Gerais resolver assumi-la como instrumento oficial. Com todo o respeito aos paulistas e até aos goianos e os outros – a viola hoje em dia é tocada por todo o Brasil – não é possível falar de viola sem citar seus maiores executantes, historicamente. E esses são, na maioria, nascidos em Minas Gerais. Portanto, cabe a Minas Gerais assumir a função de intensificar a valorização e a difusão desse que é o mais brasileiro de todos os instrumentos, e o mais importante culturalmente.
Prosa Caipira: pra encerrar, como você analisa a música caipira nos dias de hoje?
João Araújo: tenho um compromisso pessoal com a autenticidade, com a verdade. E também com o bom senso, com a complacência entre os filhos do mesmo Deus. Querer ver o mundo de hoje em dia como se ele ainda fosse igual ao passado, para mim é querer negar a verdade da vida, do mundo. Acho que a cultura caipira tem que ser louvada, respeitada, preservada e difundida às novas gerações. Mas tenho críticas severas à artistas que, por exemplo, nasceram em famílias ricas da cidade ou que durante sua vida artística se dedicaram a outras culturas (como o Rock-and-Roll) e que depois de um tempo passam a defender, energicamente, os “valores caipiras de raiz”. Normalmente, esses são os que mais se levantam contra as naturais novidades evolutivas da viola, aos novos valores, às novas ideias.
Minha opção foi a de falar daquilo que posso falar com autenticidade: a influência da viola na música popular brasileira. Sofro (ainda) algumas perseguições, assim como outros que usam viola no choro, no samba e até em ritmos “não nacionais” como o jazz e o rock. Me fio nas palavras de Tião Carreiro: “música só tem dois tipos: boa e ruim!”. E penso que o tempo mostrará que minha intenção sempre será de respeito e de homenagem – e ainda de levar cultura brasileira para novos ouvintes, novas gerações de brasileiros, o máximo que conseguir.
Pra mim, não adianta querer dar uma de “caipira radical” e ao mesmo tempo usar diariamente a rede mundial de computadores, os celulares, etc… O mundo não pára, pra ninguém. E a lição que vejo na história da viola é a de enfrentar todas as adversidades, tomar novas formas até, mas seguir em frente, em paz. Obrigado!
3 Comentários sobre este texto
3 Comentários sobre este texto “João Araújo e o som da viola urbana”
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Ei, compadre João Araújo: essa história de a viola ser instrumento oficial de Minas vai dar o que falar. Com todo respeito à cachaça mineira, ao café de ótima qualidade de Minas, mas tem cachaça ótima paulista e São Paulo ainda é a terra do café. A viola ser instrumento mineiro… O que diria o Luciano Queiroz? E o Levi Ramiro? E o Ivan Vilela?
Brincadeirinha, compadre João. Tem implicância, não! A gente tem o maior apreço pelo João Araújo e sabe que o João Araújo traz nós paulistas como seus amigos. Essa conversa de paulistaXmineiro é prosa fiada para dar motivo para uma roda de viola juntos.
Parabéns, João, pelo seu grande trabalho.
Parabéns, Zé Caipira, pelo seu site.
E a gente proseia mais,
Luiz Viola
Bauru e São Manuel SP
Tem razão compadre Luiz, o jeito é juntar a mineirada e os paulistas numa roda de viola. Somos todos irmãos de alma caipira.
Sucesso e paz!
“Cumpadres” João Araújo e Zé Caipira!!!
“Prosa Caipira” é um excelente espaço recém-criado na Internet sobre a nossa Cultura Caipira e está defendendo magistralmente essa Bandeira!!!
A Viola realmente simboliza as Minas Geraes e está presente em praticamente todos os Estilos de Nossa Boa Música Brasileira!!!
De qualquer forma, gosto de chamá-la carinhosamente de Viola Caipira pois, além de ser o principal Estilo que ela representa, não podemos jamais esquecer as origens!!!
Além disso, Viola Caipira é o termo pelo qual podemos diferenciar da Viola Clássica, que possui 4 Cordas, é tocada com Arco e faz parte do Naipe das Cordas na Orquestra Sinfônica!! Coincidência de nome, já que os Instrumentos são totalmente diferentes. A Viola da Orquestra Sinfônica é só um pouquinho maior do que o Violino e é tocada praticamente na mesma posição do Músico!!!
Valeu, “Cumpadres” João Araújo e Zé Caipira!!!
Parabéns pelos comentários e por esse novo Espaço na Internet dedicado à autêntica Cultura Caipira!!!
Como diz sabiamente o “Cumpadre” João Araújo, “vamos proseando”…
Com um grande abraço do Ricardinho!!