out 10 2009

O primeiro disco caipira

Publicado por Zé Caipira na categoria A Música Caipira

Final da década de 20, mais precisamente em 1929, o poeta, compositor, escritor e intérprete, chamado Cornélio Pires, natural da cidade de Tietê (SP), iniciou uma grande revolução no mercado da música caipira.

Cornélio bancou do próprio bolso a gravação do primeiro disco caipira da história da música brasileira. Era um disco de 78 rotações que apresentava a música Jorginho do Sertão interpretada pela dupla Caçula e Mariano (tio e pai do sanfoneiro Caçulinha, respectivamente). O que parecia loucura, devido a música caipira ser de origem rural e repleta de erros de português, logo se tornou o estopim de uma grande explosão de vendas.

Jorginho do Sertão, primeira música caipira a ser gravada, possui composição leve e irreverente.

“O Jorginho do Sertão
Rapazinho de talento
Numa carpa de café
Enjeitô treis casamento

Logo veio o seu patrão
Cheio de contentamento
(tenho treis filhas “sorteira que
Ofereço em casamento)

Logo veio a mais nova
Vestidinho cheio de fita
Jorginho case comigo
Que das treis Sô a mais bonita

Logo veio a do meio
Vestidinho cor de prata
Jorginho case comigo
Ou então você me mata

Logo veio a mais véia
Por ser mais interesseira
Jorginho case comigo
Sou a mais trabaiadeira

Jorginho pegou o cavalo
Ensilhô na mesma hora
Foi dizê pra morenada
Adeus que eu já vou me embora

Na hora da despedida,
Ai, ai, ai
É que a morenada chora
Ai, ai, ai

O Jorginho arresorveu
É melhor que eu mesmo suma
Não posso casá cum as treis, ai
Eu num caso cum nenhuma”

Para divulgar o primeiro disco, Cornélio Pires concentrou suas energias na venda de vitrolas. O raciocínio era simples, sem vitrola não tinha como ouvir o disco. Numa ação comercial arrojada, presenteava o comprador da vitrola com um disco de música caipira. Ao mesmo tempo organizou um grupo de artistas chamado “Os caipiras de Cornélio” e saiu em caravana pelo interior fazendo apresentações em circos, vendendo vitrolas e distribuindo seu disco caipira.

site_caipiras_cornelio

A turma caipira de Cornélio Pires. Foto histórica de 1929, da esquerda para a direita, em pé: Ferrinho, Sebastião Ortiz de Camargo (Sebastiãozinho), Caçula, Arlindo Santana; sentados: Mariano, Cornélio Pires e Zico Dias.

Em pouco tempo as mil cópias da primeira edição do disco se esgotaram e Cornélio partiu para a impressão da segunda edição e abriu, definitivamente, a porteira do sucesso para a música caipira. Diga-se de passagem, mil cópias era um número expressivo para a época, as edições de discos geralmente saiam com 400 discos!

Homem de visão comercial privilegiada, Cornélio foi então contratado pela gravadora como produtor de discos de música caipira. Para garantir preços acessíveis ao povo, adotou a inserção de anúncios de patrocínio nas capas dos discos. A estratégia de preços baixos, junto ao crescimento e audiência dos programas caipiras nas rádios, impulsionou a venda de discos.

Cornélio faleceu em 17 de fevereiro de 1958 aos 73 anos. Seu espírito inovador e desbravador deixou uma contribuição inquestionável para o início da comercialização e divulgação da música caipira brasileira.
—–
Bibliografia
Ribeiro, José Hamilton. Música Caipira: as 270 maiores modas de todos os tempos. São Paulo: Globo, 2006.

Internet
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cornelio_Pires

2 Comentários sobre este texto

2 Comentários sobre este texto “O primeiro disco caipira”

  1. Afonso Celso Barreiroson 25 jan 2010 at 22:30

    Prezado Zé Caipira,

    Primeiro quero cumprimentá-lo pelo belíssimo trabalho desse site, em pról da nossa sempre boa e eterna música caipira.
    Foi uma recomendação do meu amigo Ricardinho, que igualmente faz um trabalho maravilhoso de resgate e divulgação da cultura caipira no seu site ricardinhoboamusica.com.br.
    Permita-se fazer uma observação, quanto aos citados “erros de português” existentes na música Jorginho do Sertão.
    Tenho comigo que não são erros, mas sim uma música no autêntico DIALETO CAIPIRA, variação linguística assim reconhecida pelos mais renomados estudiosos da nossa lingua.
    Era assim que se expressavam os nossos caipiras, que foram proibidos pela Coroa Portuguesa de falar o nheengatu (a lingua geral falada nos dois primeiros séculos do Brasil Colônia).
    Obrigado a falar o português clássico, os brasileiros daquela época, radicados na região centro-sudeste acabaram por criar um jeito próprio de falar, que veio se transformar no que chama-se hoje de Dialeto Caipira.
    É assim também no nordeste e no extremo sul do país, onde os brasileiros daquelas regiões também criaram seus dialetos, com expressões e pronúncias diferentes das demais regiões do país.
    É a minha modesta opinião.

    Grande abraço, parabéns pelo site.

    Afonso Barreiros

  2. Zé Caipiraon 26 jan 2010 at 8:24

    Compaheiro Afonso, você tem toda a razão. Os caipiras “criaram” um dialeto próprio, rico em detalhes, muito presente, por exemplo, nas canções de Tonico e Tinoco.

    Abraços

    Zé Caipira

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