fev 02 2010
Paulo Freire, artista com alma caipira
Caipira, violeiro, escritor, ator, contador de causos, produtor, assim é Paulo Freire. Um artista. Vai lendo…
Prosa Caipira: você aprendeu a tocar viola no sertão de Urucuia, Minas Gerais, com o Sr Manoel de Oliveira. Imagino que aprender viola no sertão de Minas Gerais, em contato direto com a roça, tenha sido uma experiência fantástica. Dá pra descrever a importância desta sua convivência com o povo simples do interior brasileiro durante seu aprendizado na viola?
Paulo Freire: para mim, a música da roça precisa ser aprendida na roça. O sertanejo vive encantado em suas manifestações artísticas. Os toques de viola do Norte de Minas lidam com os fenômenos da natureza. Quando conheci o seu Manoel foi como desembocar em um grande rio, muito antigo e generoso. E a música do mestre continua me guiando. É impressionante o tanto de assunto que ela carrega. Fizemos um show juntos no final de 2009, lá no Urucuia, que foi extraordinário. Depois fiquei arranchado em sua casa, ouvindo e contando causo, deitado na rede e tomando banho de rio com os filhos de seu Manoel, meus irmãos. Tudo isso alimenta minha arte e só sou violeiro graças à esta formação.
Prosa Caipira: e sua experiência aprendendo violão clássico em Paris, como contribuiu para a formação do violeiro Pauo Freire?
Paulo Freire: depois que morei no Urucuia, senti falta de um aprimoramento técnico no instrumento, no caso o violão. Também quis aproveitar todas as oportunidades que uma cidade como Paris nos proporciona. Assisti grandes concertos, freqüentei cursos de música, convivi com artistas de diferentes países. Estudei seriamente durante um ano e meio. Depois passei mais um ano viajando e tocando pela Europa. Foram dois aprendizados fundamentais, o primeiro me alimentando de uma cultura estabelecida e forte, o segundo tocando dias e noites e conhecendo novos países. Isso se reflete nos caminhos que busco para a música que faço.
Prosa Caipira: quem são os violeiros que te inspiram?
Paulo Freire: além do seu Manoel, alguns outros violeiros do Norte de Minas, como o Adão Barbeiro, Zé Costa e Alírio Ramos. Renato Andrade sempre me inspirou, para tocar e contar causo, a figura do Renato é importantíssima para os violeiros. E tem um bocado de companheiro aí na estrada, que se falar de um e esquecer do outro, alguém vai acabar me rogando uma praga. E praga de violeiro…
Prosa Caipira: na sua opinião, quais músicas caipiras não podem faltar em uma roda de viola?
Paulo Freire: acabei de me apresentar em uma roda de viola com o Índio Cachoeira e o Ricardo Anastácio. Nunca tínhamos feito nada juntos. E foi ótimo! A tendência é tocarmos os clássicos, como Rio de Piracicaba e Tristezas do Jeca, mas também apresentamos músicas nossas. Devo muito minha formação às Folias de Reis. Durante os pousos nos giros de folia, o que mais tocávamos nas rodas eram luduvinas, inhuma, rio abaixo, lundus. Então acho que existem vários tipos de roda de viola, e os clássicos que cada violeiro abraça.
Prosa Caipira: em seu livro “Eu Nasci Naquela Serra” você narra a história dos compositores Angelino de Oliveira, Raul Torres e Serrinha que foram grandes nomes na história da música caipira. A música caipira mudou bastante nos últimos anos. Como você analisa a música caipira produzida nos dias atuais?
Paulo Freire: outro dia escutei no rádio uma entrevista com uma nova dupla. Eles explicaram de uma forma bem sucinta este causo. Falaram: primeiro teve a música caipira, depois a sertaneja, a sertaneja romântica e agora a sertaneja universitária. Acho que é simples assim, são músicas distintas com alguns traços em comum (às vezes só as vozes duetadas). Tem gente séria fazendo. Mas também tem gente só querendo se dar bem, seguindo alguma fórmula. A história da arte sempre foi assim. E aí também entra a questão do gosto, tudo muito subjetivo. Enfim, essa é uma conversa comprida e espinhuda.
Prosa Caipira: a viola hoje está presente nos concertos, na universidade, e vem ganhando um destaque cada vez maior no cenário musical. Dá pra pensar em viola sem pensar em música caipira?
Paulo Freire: tenho pensando cada vez mais no seguinte, a viola realmente vem se projetando e ganhando novos espaços, mas creio que o lugar mais importante da viola continua sendo a roça. Os interessados em buscar a essência deste instrumento, devem se lembrar sempre disso e buscar as Folias de Reis e toda a cultura do campo. Viola é a música caipira. Mas não só a música caipira produzida pelas duplas, tem também a música que se faz no sertão, em contato íntimo com a natureza, as músicas de caráter religioso, como os terços cantados e rezados com viola. Enfim, a viola tem assunto que não acaba mais. E cabe a nós todos que amamos este instrumento e o que ele representa, procurarmos estes conhecimentos tão importantes para a cultura brasileira.
Prosa Caipira: e o futuro, está trabalhando em algum novo projeto?
Paulo Freire: estou ainda envolvido com o trabalho que lancei ano passado (2009): Nuá, as músicas dos mitos brasileiros, um CD junto com um livro de causos em que trato do encontro com os incríveis seres de nossas matas. Finalizei um novo romance, estou em negociação com algumas Editoras. Se tudo der certo, lanço este romance ainda em 2010. Em março saio em uma turnê por Santa Catarina, dentro do projeto Baú de Histórias, promovido pelo SESC SC, serão cerca de 40 apresentações. Estou escrevendo as minhas músicas para um álbum de partituras. Ana Salvagni e eu preparamos um novo repertório de voz e viola. Junto à ilustradora mineira Juli Buli preparamos uma série de livros para crianças. E ainda tem alguns projetos que estou namorando para este ano. Em meu site, o www.paulofreire.com.br, vou contando tudo. Apareçam!!
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Crédito das Imagens – www.paulofreire.com.br
4 Comentários sobre este texto
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Muito bacana a entrevista. Parabéns !!
Tomara que venha mais com outros violeiros/cantores/compositores.
Viva a nossa viola !!
Abraços,
Henrique W.
Prezado compadre Henrique, obrigado por sua visita! Sim, em breve teremos mais entrevistas aqui no blog!
Grande abraço
Zé Caipira
Vida longa a musica caipira de raiz e seus mantenedores: os violeiros!
Sucesso ao site….
Obrigado pela visita Marcelo, seja bem-vindo ao Prosa Caipira!
Abraços
Zé Caipira